Entre memórias e acordes, uma noite de blues e jazz na Quinta do Sumidouro
Na Casa Fernão Dias, Sumidouro Duo Jam reuniu artistas e público em uma experiência que aproximou patrimônio, resistência e experimentação musical
Por Luiza Ferreira Ferraz
Publicado em 05/08/2026 09:00 • Atualizado 06/08/2026 16:19
Cultura
Palco do Sumidouro em Cena (Foto: Luiza Ferraz)

A Casa Fernão Dias é um lugar perfeito para se contar histórias. Ali, onde surgiu um dos primeiros assentamentos de Minas Gerais, a paisagem guarda marcas de diferentes tempos. Em meio às árvores, ao chão de terra e à tranquilidade característica da Quinta do Sumidouro, a arquitetura colonial foi o cenário de uma noite em que música, aprendizado e memória se encontrariam de forma rara.

Quando o sol ainda iluminava a varanda da casa, o evento existia apenas nos bastidores. Antes dos aplausos, vieram as afinações. Aos poucos, o espaço assumia a forma de um palco: a produção ajustava os últimos detalhes, equipamentos eram posicionados e guitarras experimentavam acordes ainda interrompidos por regulagens de volume. Ainda eram testes de som, mas já suficientes para despertar a curiosidade de quem chegava mais cedo.

Famílias, casais e grupos de amigos ocupavam lentamente o espaço. Entre conversas, reencontros e os cachorros que circulavam livremente pelo terreno, havia uma atmosfera difícil de reproduzir em eventos desse porte. Mais do que um show, a sensação era de estar na casa de alguém.

Aquela noite tinha nome. No dia 1º de agosto, a Casa Fernão Dias recebeu a segunda edição do Sumidouro Duo Jam, encontro que integra a Plataforma Sumidouro em Cena. Criada a partir da experiência do Festival Sumidouro em Cena — que chega à sexta edição em 2026 —, a iniciativa amplia a programação cultural realizada ao longo do ano na região, aproximando artistas, público e território por meio da música.

Mas aquela noite carregava uma camada que não estava descrita na programação. Em uma varanda marcada por uma das memórias coloniais de Minas Gerais, ecoaria uma música que nasceu justamente da tentativa de transformar silêncio em voz. O blues, criado por homens e mulheres negros em meio à exploração escravocrata nos Estados Unidos, chegaria à Casa Fernão Dias para contar outra história de resistência.

Para entender o que aconteceria naquela varanda, porém, era preciso olhar primeiro para o território.

A região da Quinta do Sumidouro figura entre os mais antigos núcleos de ocupação de Minas Gerais, mas sua história começa muito antes da chegada dos bandeirantes. Habitado por povos indígenas, o território era conhecido como Anhanhonhacanhuva — expressão de origem tupi que pode ser traduzida como "água parada que some no buraco", em referência ao fenômeno geológico que, mais tarde, daria nome ao Sumidouro.

Com a expansão colonial portuguesa pelo interior do território, a paisagem ganhou novos nomes e novos significados. A ocupação bandeirante integrou a região ao processo de formação de Minas Gerais, mas também foi marcada pela violência contra os povos originários e pela lógica da exploração colonial. A Casa Fernão Dias permanece como testemunha desse período, preservando até hoje as marcas de uma história feita de permanências, rupturas e disputas.

Foi nesse cenário que Piero Grandi e Netto Rockfeller iniciaram a primeira atividade da noite. Antes de qualquer improviso ou solo de guitarra, escolheram começar pela origem. Durante cerca de uma hora, conduziram o público por uma viagem que explicava não apenas como o blues soa, mas por que ele existe.

Por que a guitarra chora?

Quando o relógio marcou 19 horas, Piero Grandi e Netto Rockfeller iniciaram a primeira atividade da noite. Sob a varanda iluminada da Casa Fernão Dias, diante de centenas de pessoas que ocupavam aquele espaço aos poucos, os dois músicos escolheram começar pelo princípio: antes de qualquer improviso ou demonstração técnica, era preciso compreender a história da música que os levou até ali.

O workshop, inicialmente pensado como uma apresentação sobre a linguagem do blues, ganhou uma dimensão maior. Quem chegou esperando uma atividade voltada apenas aos instrumentos encontrou uma imersão sobre cultura, memória e a formação de uma das linguagens musicais mais influentes do mundo. No palco, a estrutura parecia simples: duas guitarras, um contrabaixo acústico e uma bateria. Mas, ao longo de aproximadamente uma hora, aqueles instrumentos conduziriam o público por séculos de acontecimentos, transformações e criações.

Piero Grandi e Netto Rockfeller não estavam naquela varanda apenas como instrumentistas. Suas trajetórias carregavam anos de estudo, pesquisa e vivência dentro da música. Piero, formado em Música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), atua como guitarrista, compositor, produtor e arranjador. Netto, com mais de 25 anos de carreira, construiu reconhecimento no blues como músico, compositor e produtor, além de ter dividido palcos e gravações com artistas brasileiros e estrangeiros do gênero.

Naquela noite, porém, suas maiores credenciais não estavam apenas nos caminhos percorridos, mas na capacidade de transformar conhecimento em experiência sonora.

Muito antes das primeiras guitarras elétricas, o público foi levado às origens do blues. Aos tempos em que homens e mulheres negros submetidos à escravidão nos Estados Unidos encontraram na música uma forma de expressão, sobrevivência e resistência diante de uma realidade marcada pela exploração, pela violência e pelo sofrimento. O próprio nome blues carrega essa relação com a tristeza, a melancolia e os sentimentos que atravessavam uma população submetida a condições desumanas.

Nas primeiras explicações, apareceram as chamadas work songs, cantos de trabalho que acompanhavam a rotina dos trabalhadores escravizados nas plantações; a influência da música religiosa negra; e a construção de uma linguagem marcada pelo ritmo, pela repetição e pela emoção. Cada transformação do blues era acompanhada por sua própria sonoridade: algumas vezes pelas guitarras dos próprios músicos, outras pela escuta de registros que preservam a crueza e a força das primeiras manifestações do gênero.

A formação musical de Piero aparecia na maneira como conduzia a narrativa, conectando acontecimentos, características técnicas e transformações do blues ao longo do tempo. Netto acrescentava outras perspectivas, aproximando a trajetória do gênero de diferentes contextos musicais da América Latina. O que era contado também ganhava forma sonora, revelando como cada elemento daquela música nasceu de uma experiência específica.

Foi já próximo ao fim do workshop que uma das passagens mais marcantes da noite aconteceu: história e música se encontraram em uma mesma apresentação. Ao interpretar “The House of the Rising Sun”, os músicos explicaram que a canção conhecida mundialmente pela gravação do grupo The Animals carrega uma trajetória anterior, ligada à tradição popular norte-americana e a narrativas de sofrimento e marginalização.

A discussão sobre a música abriu espaço para uma reflexão ainda mais ampla: a permanência de estruturas de exploração da população negra nos Estados Unidos mesmo após o fim da escravidão, incluindo sistemas de encarceramento que historicamente também foram utilizados como mecanismos de controle e trabalho forçado. 

Sem precisar de palavras, a interpretação instrumental da dupla revelou outra camada daquela música. A técnica das guitarras e a emoção contida em cada nota transformaram “The House of the Rising Sun” em mais do que uma melodia: ela se tornou uma passagem pela memória de um povo.

Naturalmente, a conversa chegou a uma das questões centrais daquela trajetória: por que o blues nasceu nos Estados Unidos e tomou aquela forma específica? Os artistas explicaram como as condições impostas às populações negras escravizadas, incluindo a repressão ao uso de instrumentos de percussão em determinados contextos, influenciaram uma linguagem construída a partir da voz, do corpo e dos sons disponíveis naquele cotidiano. O lamento da guitarra, tão característico do gênero, guarda justamente essa aproximação com a voz humana.

Essa comparação também trouxe o Brasil para a conversa. Enquanto diferentes condições sociais e culturais contribuíram para o nascimento do blues norte-americano, a permanência de tradições percussivas esteve ligada ao desenvolvimento de manifestações como o samba, também construídas a partir de experiências negras de resistência e criação cultural.

Ao percorrer essa trajetória, Piero e Netto também revelaram o alcance que o blues conquistaria nas décadas seguintes. A linguagem criada a partir dessas experiências se tornaria uma das bases da música moderna, influenciando gêneros como jazz, rock, soul e funk.

Quando o espaço foi aberto para perguntas, o público demonstrou que aquela experiência ainda tinha histórias para render. Uma fila se formou diante da varanda, reunindo dúvidas sobre instrumentos, representatividade feminina, relações com outros gêneros musicais e curiosidades sobre a própria trajetória do blues.

A programação precisava seguir, mas a sensação era de que aquela primeira parte da noite havia aberto uma porta. Após aquele momento, daquelas explicações e daqueles sons, seria difícil escutar uma sequência de acordes, melodias e solos de guitarra da mesma maneira

Duas guitarras, uma conversa

Depois de aproximadamente uma hora de conversa, perguntas e descobertas, a varanda da Casa Fernão Dias voltou a assumir o papel que guiaria o restante da noite: ser espaço para a música acontecer. O que até então havia sido apresentado em palavras passaria a ser revelado pelas guitarras.

Anunciado como “Netto Rockfeller x Piero Grandi — Duelo de Guitarras”, o encontro poderia sugerir uma disputa entre dois instrumentistas. Mas, quando o Sumidouro Duo Jam começou, o que se viu foi outra proposta. Mais do que um duelo, a apresentação assumiu a forma de uma jam session: uma construção livre, em que as guitarras encontravam diferentes caminhos dentro da mesma linguagem musical.

O blues apresentado no workshop agora aparecia em movimento. As referências do gênero se misturavam ao rock, aos improvisos e às escolhas dos músicos, que exploravam mudanças de dinâmica e novas interpretações sem transformar o repertório em uma simples reprodução de clássicos.

Piero Grandi e Netto Rockfeller traziam para o palco trajetórias distintas, mas uma mesma intimidade com a música. Cada momento da apresentação revelava não apenas técnica, mas a capacidade de ouvir o outro e construir, a partir dessa escuta, uma experiência própria.

A apresentação ganhou ainda novas camadas com as participações especiais da noite. Mayra Aveliz, cantora de blues e rock, subiu ao palco e trouxe sua voz como mais um instrumento dentro daquela conversa musical. Com uma interpretação marcada pela potência e pela precisão, ampliou a atmosfera criada pelos músicos.

Também participou do encontro Eduardo Sanna, cantor, gaitista e idealizador da banda mineira Little Butter, grupo que transita pelo blues, jazz, soul e funk. Sua presença acrescentou ao palco a sonoridade da gaita, instrumento profundamente ligado à trajetória do blues e às diferentes formas assumidas pelo gênero ao longo do tempo.

A apresentação daquele grupo de artistas chegava ao fim, mas a conversa musical iniciada naquela noite estava longe de terminar. Depois de apresentar as raízes do blues e revelar sua força pelas guitarras, a programação seguiu por outro caminho sonoro, mantendo a proposta de transformar aquele espaço histórico em lugar de encontro, escuta e descoberta.

Quando o jazz encontra o corpo

Às 22 horas, a música tomou outro caminho. Depois da imersão pelas raízes do blues, a noite encontrou no jazz uma nova forma de expressão com a Happy Feet Jazz Band, grupo de Belo Horizonte formado em 2008, cuja trajetória é marcada pelo diálogo entre a tradição do gênero e novas possibilidades de interpretação.

Com piano, bateria, trompete e voz, a banda percorreu diferentes momentos do jazz em um repertório formado por clássicos e releituras. Parte desse trabalho está registrada no álbum comemorativo dos 15 anos do grupo, lançado para celebrar a trajetória da formação e reunindo referências de diferentes períodos do gênero a partir de arranjos próprios e da personalidade construída pelos músicos ao longo dos anos.

Mais do que reproduzir canções conhecidas, a Happy Feet apresentava novas possibilidades para músicas que atravessaram gerações. Em “Feeling Good”, um dos momentos de destaque da noite, a voz ganhou protagonismo e se uniu aos instrumentos em uma interpretação marcada por presença e personalidade. A apresentação revelava uma banda que compreende o jazz como uma linguagem aberta à criação, ao improviso e à reinvenção.

Se o blues havia conduzido aquela noite pela memória e pela história, o jazz fazia outro convite: sentir. Aos poucos, as pessoas acompanhavam os ritmos com o corpo, balançavam, sorriam e dançavam, incorporando a atmosfera criada pelos músicos. A música não estava apenas diante da plateia; estava entre ela, que até cantou junto.

Em um ambiente cercado pela natureza e pela história, a Happy Feet Jazz Band mostrou a força de um gênero capaz de atravessar diferentes tempos e públicos. As melodias e percussões ocupavam o espaço, misturavam-se aos movimentos e às vozes ao redor, transformando aquela apresentação em mais uma camada da experiência construída naquela noite.

A história continua sendo escrita

A noite havia começado com uma história contada pelas origens do blues e terminou mostrando como a música continua se transformando. Entre guitarras, piano, trompete, vozes e improvisos, a Casa Fernão Dias foi atravessada por novas narrativas, somando uma experiência contemporânea às muitas camadas que aquele espaço já reunia.

Por algumas horas, diferentes elementos se encontraram naquele lugar: um território marcado por povos, disputas e permanências; uma música criada a partir da resistência; e artistas que seguem explorando novas possibilidades para linguagens que atravessaram décadas. O contraste simbólico entre a arquitetura colonial e a criação contemporânea, entre a preservação e a experimentação, revelou a força da cultura em aproximar trajetórias aparentemente distantes.

E foi justamente deste encontro entre diferenças que nasceu a força do evento. Ao deixar aquele espaço, permanecia a sensação de ter acompanhado algo que ia além de uma sequência de apresentações. A experiência estava na união entre patrimônio, natureza, música e descoberta: um lugar marcado por tantas trajetórias que viu novas interpretações nascerem por meio dos sons, da criatividade e das conexões construídas entre artistas e público. Mais do que revisitar histórias já conhecidas, aquela noite também passou a fazer parte delas.

Por Luiza Ferraz

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